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Archive for agosto \18\UTC 2010

Chris havia acabado de voltar para o Canadá depois de uma longa viagem pelo mundo. Estava revendo a família, curtindo os amigos e retomando contatos profissionais. Sentia-se quase feliz. O que atrapalhava era uma inquietação interna que tinha. Os meses foram se passando e ele sempre tentando, sem sucesso, descobrir a origem daquele sentimento.

Quando estava começando a achar-se integrado à nova (e ao mesmo tempo conhecida) realidade e sua vida estava dando os primeiros passos em direção à normalidade, um grupo de amigos contou-lhe que iria viajar por alguns meses. O plano era voar para a Nova Zelândia e depois ir para a Europa, onde visitariam diversos países.

Chris pensou apenas uma vez. “Perder a oportunidade de sair por aí e ainda com amigos? No way.” Conversou com os pais, que o apoiaram, como sempre, e deu início aos preparativos. Tudo teria de ser feito muito rapidamente, visto que seus amigos estavam adiantados no planejamento da próxima grande aventura.

No dia da partida, o pai de Chris o acompanhou até o aeroporto. Chris despediu-se e entrou no avião com seus companheiros de viagem. Acomodou a bagagem de mão no compartimento acima de seu banco e sentou-se.

Quando as portas da aeronave foram fechadas, Chris sentiu um pânico. Não queria estar ali. Havia tomado a decisão errada. Levantou-se, correu pelos corredores, falou com as comissárias de bordo, mas não foi autorizado a sair. Não havia mais volta. Não por hora.

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Era domingo de manhã e o centro de Florianópolis estava vazio. O ônibus em que eu me encontrava estava parado no terminal, quase saindo em direção ao Sambaqui. Eu havia acabado de sentar em um daqueles bancos altos, perto da porta traseira, e lia.

De repente, ouço um zumzumzum na parte da frente do veículo. É uma mulher de uns 50 anos, com uma mochila nas costas e um mapa nas mãos, fazendo perguntas em inglês para o motorista. O condutor nem tenta colaborar, logo aponta para o cobrador, que não entende nada, mas vê o que a viajante está apontando no papel e começa a responder, em português, que o ônibus para a Lagoa da Conceição “fica ali atrás”. A senhora faz uma cara de confusa e continua perguntando.

E então, como numa volta no tempo, me vejo nela, perdida em um país onde poucas pessoas falam inglês e precisando de ajuda para me localizar. Rapidamente, pulo do assento e grito “podexá que eu falo com ela”. Enquanto o motorista começa a acelerar para fazer uma pressão e evitar atraso, descubro para onde ela quer ir: Joaquina e Praia Mole. Ixi, coitada, transporte público para esses lugares no domingo é coisa rara!

Ainda assim, dou as indicações, mas alerto que “demora, viu”. Mostrando os nomes no mapa, digo para ela pegar o ônibus x, estacionado atrás de nós, parar no terminal y, que é igual a esse, e só então pegar o ônibus que vai para um dos locais que ela pretende conhecer. Nisso, ela agradece muito muito, até em português, e desce. “Boa sorte”, ainda consigo dizer. E assim a vejo em mim, no país dela, orientando viajantes perdidos.

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Por Thiago Lyra

Esses dias Letícia veio a mim dizendo que havia encontrado um apartamento perfeito (ela tá procurando um, pra morar com Naiara), que tinha 109 metros quadrados, ficava na Cardeal “mas era tranquilo porque era de fundos” e num predinho até que honesto. Só tinha um probleminha: a corretora havia dito que os vizinhos anteriores tinham tido uma coisinha com a vizinha de baixo… que é sindica (foi promovida!). Ah, essa tava fácil né gente?

— Por acaso o prédio se chamava Jardim do Éden?
— É, uai! (ela é mineira)
— E o apartamento era o 92?
— É… ocê conhece?
— Menina, corra enquanto é tempo! Ali embaixo reside a Dona Meire, personagem das primeiras temporadas que insiste em ser mencionada.
— A gente tava até pensando que poderia conquistar essa tal vizinha de baixo, que no fundo ela só queria ser amada. A gente levaria bolo, presentinhos e levaria no bico.
— Minha filha, até flores eu dei pra aquela desgraçada! Quando eu penso nos reais que gastei naquelas ramas!

Enfim, contei pra ela no gênero “lembra da vizinha chata que foi a razão-mor de eu ter saído do meu prédio? Pois então era ela”. Inacreditável a coincidência, né?

Mas enfim, o fato é que o vizinho anterior não era eu. O casal que morou lá após eu e Anita também teve problemas com a louca! O que, aliás, nao é de se espantar.

Letícia e Naiara, claro e sabiamente, recusaram a oferta. E comentaram as razões, que me conheciam e tal. “É, a gente sabe que ela é bem dificil mesmo, e está inclusive atrapalhando novos aluguéis por conta disso…”, disse a corretora. Mas eis que liga a corretora pra ela hoje de manhã (a história não acaba nunca, né?) de novo:

— Oi Letícia, então, a gente falou com a vizinha de baixo. Ela disse que a coisa não é pra tanto, que se você quiser pode ir lá se apresentar a ela, conhecê-la… que teme que as pessoas estejam fazendo uma ideia de “intransigente” de sua pessoa, mas que não é assim!

Não quis comentar sobre os vizinhos anteriores, mas “o Thiago, sim, fazia muita festa”.

Quem não te conhece que te compre. Abre o olho, japonesa!

Que morra amarga e sozinha, isolada na sua bolha asséptica de carpete vermelho e com os cabelos caindo.

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Sempre gostei do Jamie Oliver. Adoro os pratos sofisticados que ele faz com o pé nas costas, o jeito simples com que ensina as receitas, os ingredientes frescos e orgânicos que usa e os programas que faz na fazenda com o jardineiro Brian. Além disso, acho um charme aquela língua presa, aquele sotaque britânico e aquela cara de guri que ele tem.

Mas nos últimos tempos o chefe inglês anda me impressionando também pela postura revolucionária que tem adotado. Dia desses, vi no GNT o programa “Jamie’s Fowl Dinners”, veiculado pela primeira vez em 2008 no Reino Unido. A proposta feita aos convidados, que iam desde apaixonados por McDonald’s e empresários da indústria alimentícia até adeptos de comida orgânica, foi de ir a um jantar de gala preparado pelo renomado chefe Jamie Oliver. Mas houve mais que apenas um jantar.

Como os pratos seriam a base de ovos e frango, o apresentador mostrou como é a vida de uma galinha em uma cadeia produtiva. Além de vídeos com bichos que não conseguem andar por causa do crescimento acelerado e gaiolas superlotadas, houve demonstrações no estúdio do sacrifício de pintinhos machos que não servem para colocar ovos e da morte de animais prontos para o abate.

No fim, Jamie Oliver cozinhou duas versões de cada receita: uma com frangos industrializados e outra com frangos criados soltos, sendo essa última a preferida de todos os convidados, como já era de se esperar. Mas, olha, eu contei isso tudo para ilustrar a posição ousada do cidadão ao desafiar uma indústria tão poderosa mundialmente. Claro que ele também tem seus interesses, afinal está no ramo de venda de produtos orgânicos. Mas isso não invalida o fato de ele estar do lado certo, na minha opinião.

E, para fazer uma propaganda gratuita, vem mais por aí. Sábado começa a passar aqui no Brasil a série “Jamie’s food revolution”, em que ele vai para a cidade menos saudável dos Estados Unidos para tentar mudar os hábitos alimentares da população. Pelo trailer que está no YouTube, parece que o negócio vai ser tenso. Tem até criança achando que tomate é batata e merendeiras desdenhando o que ele propõe. Eu vou assistir. E, como diz Jamie Oliver, “If you think that’s not important, then shame on you” (Se você não acha que isso é importante, que vergonha”).

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