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No ultimo dia 11 completei 28 anos. Eh, de  repente 28. E esse, um pouco para minha felicidade e um tanto para minha infelicidade, foi o quarto ano seguido em que comemorei meu aniversario longe de casa.

Em 2007, estava trabalhando em Aparecida, cobrindo a visita do papa ao Brasil, e ganhei “parabens para voce” e “Deus te abencoe” de aproximadamente 30 padres. Em 2008, estava na na Cidade do Cabo, na Africa do Sul, onde, inacreditavelmente, uma amiga recem-feita que tinha me convidado para almocar esqueceu de me dar os parabens. Horas depois de me deixar no albergue onde eu estava hospedada, ela voltou, bateu na minha porta e, com um chocolate e um cartao fofo na mao, me pediu um milhao de desculpas. Ano passado, estava em Byron Bay, na Australia, mais uma cidade do coracao. La, tive uma festa bem australiana: um churrasco na praia.

Agora, aqui estou eu na Tailandia. Dois dias antes da data, decidi que nao estava no clima para comemoracoes solitarias. Entao, recorri as unicas pessoas que conhecia que ainda estavam no pais, um ingles e uma inglesa que tinha encontrado em Chiang Mai. Combinamos de nos encontrar na ilha de Ko Tao no dia 10 a noite para uma festinha, ja que no dia 11 de manha eles iriam embora.

Viajei cerca de 35 horas ininterruptas para tentar cumprir com o combinado, mas tudo que podia dar errado deu errado. Foi uma balsa que quebrou, um onibus que perdi, o outro que atrasou e, assim, nao consegui pegar o ultimo barco que ia para a ilha no dia 10 durante o dia. A unica opcao seria pegar uma balsa que sairia as 23h e chegaria as 5h, ja no dia do meu aniversario, quando meus amigos estariam saindo de Ko Tao. Ta ne, fazer o que. Mas uma baita depressao se abateu sobre a minha pessoa. Chorei, andei pela chuva sozinha, praguejei, fui grossa com pessoas, enfim.

Pra que? Eh o que me pergunto agora. Muitas vezes, as coisas acontecem como tem de acontecer. E foi esse o caso. Olha o que aconteceu: encontrei tres inglesas da pa virada no taxi que nos levou para o porto, contei minha historia triste e elas organizaram uma festa para mim, com direito a uisque tailandes, agua com gas e energetico. Ja no barco, as gurias se encarregaram de informar todo mundo sobre o meu aniversario e a bagunca estava feita. Cinco instrutores de mergulho estrangeiros e cerca de 30 tailandeses de meia idade que estavam em uma excursao trataram de cantar parabens, me animar, beber, tocar instrumentos, tirar fotos a torto e a direito. Nao pude mais reclamar!

Muito obrigada, Universo, como diria minha grande amiga Camila. Mas, por favor, faz eu estar em casa, rodeada pelas pessoas que mais amo, no proximo ano.

Comecei meu roteiro pelas tao famosas ilhas tailandesas. No momento, estou em Ko Chang. Nos proximos dias, devo ir para Ko Kut (ou Ko Kood, valem das duas grafias), Ko Tao, Ko Phangan, Ko Phi Phi e Ko Lanta. Aguardem as fotos dos ditos paraisos ja um pouco fantasiados de inferno por causa do turismo. Ainda bem que eh baixa temporada e vou conseguir curtir esses lugares com um pouco mais de tranquilidade.

Centro de meditacao, ja vazio apos o curso, sem as almofadas onde sentavamos

Bancos especiais destinados para os monges meditarem

Saida da sala de meditacao, onde eu adorava andar descalca, sentindo cada friso do chao no meu pe

Corredor em direcao a sala de meditacao. Esse era o lugar onde esperavamos para ter audiencias com o professor, um monge budista

Caminho que levava para a cabana onde fiquei hospedada durante os dez dias de curso

Minha casinha temporaria

O interior da casa. Do lado esquerdo da foto, ainda ficava o banheiro

Espaco para caminhadas, que era dividido com lagartos dos mais diversos tamanhos e cores

Banquinho onde eu costumava sentar apos o almoco ou o cafe-da-manha para tomar um cha, comer uma bolacha, uma coisinha

Ligacao entre as residencias e o predio principal, onde ficava o refeitorio e os quartos mais simples destinados aos alunos antigos

O refeitorio, onde me entupi de leite condensado, mas tambem provei os mais gostosos pratos vegetarianos da culinaria tailandesa

A galera do curso indo embora. De verde, Lili, uma alema fofa que foi minha vizinha na sala de meditacao e no refeitorio

A querida amiga francesa que fiz chamada Elise. Engracado como mesmo sem nos falarmos ou nos olharmos, nos conhecemos, pelo movimento dos corpos, pelos sons, pelas atitudes

A meditadora mais seria do curso, mas a aluna mais simpatica fora das aulas

Tchaaaau

Anita, agora uma meditadora, saindo da sala de meditacao

Consegui! Completei meu curso de meditacao aqui na Tailandia. Fiquei dez dias em silencio, meditando em media dez horas por dia, comendo so comida vegetariana, dormindo apenas (sim, para mim eh apenas) das 22h as 4h, olhando muito para dentro de mim, tendo experiencias fisicas e emocionais muito intensas.

A tecnica que aprendi, chamada Vipassana, eh a que Buda supostamente utilizava e ensinava na India ha cerca de 2.500 anos. Um dos principais objetivos desse tipo de meditacao eh fazer com que os praticantes tenham mais equilibrio na vida.

De forma bem resumida e simplificada, a ideia eh observar as sensacoes que temos no nosso corpo, sejam elas boas ou ruins, e tentar manter equanimidade, tentar nao desenvolver aversao ou desejo a nada, tentar nao se desesperar mesmo com muita dor, coceira, ardencia ou o que for.

Essa pratica geraria beneficios no dia-a-dia dos meditadores. Entre eles esta a melhora das nossas reacoes, tanto a acontecimentos positivos quanto negativos. Conhecer-se melhor, sentir-se mais descansado e melhorar a capacidade de concentracao tambem sao algumas das vantagens.

A meta final da meditacao Vipassana, assim como de quase todas as outras tecnicas, seria acabar com o sofrimento humano. Isso, claro, so seria possivel apos anos de pratica, quando se alcancaria um estado de libertacao completa. Para mais informacoes sobre a tecnica, visite o site da Dhamma, organizacao com a qual fiz o curso. Se alguem se interessar, ha um centro no Brasil com cursos periodicos.

Bom, voltando a minha experiencia. Eu, obviamente, nao atingi nada disso, mas tive resultados. Meditei durante duas horas numa madrugada em que nao conseguia dormir e nao acordei mais cansada por causa dessa privacao de sono, me recuperei mais rapido que o normal de crises de choro que tive durante o curso, reagi de forma mais equilibrada a coisas que deram errado la dentro e tambem depois que sai.

Alem disso, vivi um monte de situacoes bizarras no centro de meditacao. Ja que nao podia escrever no retiro, fiz um diario mental. Abaixo, vao os pontos que ficaram na memoria.

Dia 0
Cheguei, preenchi minha ficha cadastral, recebi um papel com o numero da cabana onde ficaria hospedada e, quando perguntada se tinha alguma duvida, nao hesitei: “Quando devo parar de falar?”. A resposta foi “depois da sessao inaugural do curso”. Entao aproveitei e bati papo com os outros cinco estrangeiros do curso e com alguns dos 44 alunos tailandeses.

Dia 1
Ai, que sono, viu. Para comecar, nao ouvi sino das 4h e cheguei 15 minutos atrasada na primeira sessao de meditacao. Depois, no intervalo das 7h as 8h, corri para o quarto para dormir. No horario do almoco, tirei outra soneca. Logico que nao prestou, fiquei o dia inteiro sonolenta, pescando enquanto estava sentada tentando meditar.

Dia 2
Descobri que no cafe-da-manha e na janta tinha leite condensado disponivel. Comecei a tomar cafe com leite condensado e comer pao com leite condensado na refeicao das 17h, a ultima do dia, por sinal.

Dia 3
Matei um mosquito que estava no meu quarto e uma formiga que entrou na minha calca. Normalmente, isso nao seria um problema. Mas la foi porque um dos compromisso que voce tem de assumir para ser aceito no curso eh se abster de matar qualquer ser vivo durante os dez dias de retiro. Tentei esquecer, deixar pra la, mas o fato ficou martelando na minha cabeca. Corri para o professor e praticamente me confessei. “Nao sei se eh besta, mas aconteceu isso e nao sei como essa coisa toda funciona”, falei. Ele riu, logico, e so me aconselhou a ser mais cuidadosa.

Dia 4
A novela da aranha. Depois da ultima sessao do dia, as 21h, entrei no banheiro da minha cabana e achei uma aranha gigantesca. E agora, Jose? Tentei ignorar a presenca da bichinha, botei meu pijama e deitei. Mas ai comecei a surtar. “E se ela subir na cama, eu me virar e acabar sendo mordida?”. Levantei. Olhei para a aranha. Nada. Nenhuma ideia sobre o que fazer. Ate que vi um balde no canto do banheiro e tive a sacada genial de prender o inseto. Com medo, o que fiz mesmo foi um jogo de arremesso de balde. Depois de uns 15 minutos de tentativas frustradas, peguei uma vassoura para ajudar na tarefa e, ra, consegui! “Ta, mas se eu deixar a aranha la, sem ar, vou acabar matando-a do mesmo jeito”, pensei. “Ai, jesus cristo, dai-me paciencia comigo mesma”, pensei em resposta. Nao podia arrastar o balde pra rua porque havia um degrau no caminho ate a porta. Entao, estendi uma canga no chao, fui empurrando o balde ate o meio do tecido, fiz um no bem forte para criar uma especie de tampa e assim levei o bicho pra rua. Porra, nessa brincadeira perdi o que, duas horas de sono? Eh, porque teve toda a novela e depois toda a adrenalina criada pela novela que me impediu de dormir logo. Jesus cristo, dai-me paciencia comigo mesma.

Dia 5
Comecei a sentir falta de carne, ate porque nao ligo matanca de animais a producao de carne at all. Hummmm, porco, galinha, bife, hummmm. Tambem senti uma necessidade incontrolavel de caminhar em superficies planas, o que era raridade por la. O lugar era cheio de espacos para caminhadas, mas tudo com escadas e morros. Me poupe. Entao, dei uma de louca e fiquei dando voltas numa area de mais ou 20 metros. Logico que atrai olhares, principalmente das alunas tailandesas. “Olha so essa estrangeira surtando ja no quinto dia”, devem ter pensado.

Dia 6
Passei a cantar, fazer exercicios vocais tipo trrrrrrrr e falar sozinha. Nao, nao porque o silencio estava me matando. Mas porque senti que fisicamente eu precisava exercitar as minhas cordas vocais, senti que as coitadas estavam ate encurtando ja. Piracao, logico.

Dia 7
Comecei a fazer piadas para mim mesma sobre o curso. Nao que o curso seja uma piada, de forma alguma, longe disso, mas sempre ha sobre o que se rir, nao? Aquele trejeito engracado do professor, aquele exercicio que faz voce se sentir ridiculo, aquele cantico em hindi que parece dizer coisas em ingles, mas obviamente nao diz, enfim. Em decorrencia disso, passei tambem a rir sozinha. Imagina o que ja nao estavam pensando de mim a essa altura do campeonato.

Dia 8
Tive minha primeira e unica comunicacao com outro estudante durante o periodo de silencio do curso. Foi com a Lili, uma menina alema. Ela estava sentada numa escada de noite e eu fui passar. Como sempre, fui de cabeca baixa porque nao deviamos nem nos olhar, nao deviamos ter qualquer tipo de interacao porque a ideia era que ficassemos isoladas ao maximo la dentro. Mas, dessa vez, nao pude respeitar a regra. Um inseto voador nao identificado me atacou, nao assim atacoooou, mas posou na minha blusa. Eu, desesperada que so, me desequilibrei e quase cai enquanto tentava espantar o bicho. Ela caiu na risada, eu tambem e nos olhamos em meio as gargalhadas. Foi tudo isso.

Dia 9
Fim da regra do silencio. Achei que ia sair tagarelando sem parar por todo canto. Mas nao. Achei a coisa mais estranha do mundo poder falar, nao me senti bem, tive de fazer muito esforco para tirar palavras da minha boca. Agora voce ve que absurdo, achar esquisito falar, um dos atos mais naturais do ser humano. Eeeeh, tem coisa que ate Deus duvida.

Dia 10
Sai do retiro e, claro, tudo foi ainda mais chocante. Transito, muita gente, barulho, dinheiro, lojas, carne (ate meu estomago estranhou). Em coisa de horas, ja estava readaptada, mas impressionante como o ser humano se acostuma com praticamente tudo, nao?

Seguindo o conselho do ditado ingles “When in Rome, do as the romans do” (“Quando em Roma, faca como os romanos), hoje comeco um curso de meditacao budista aqui na Tailandia. Durante dez dias, terei uma rotina diaria de muita meditacao, concentracao e silencio e de muito pouca comida, sono e exercicio fisico. Por conta disso, deixarei de atualizar o blog durante esse tempo. Mas, assim que voltar ao mundo normal, virei correndo aqui contar como foi tudo. Ate la!

A procissao que fechou as comemoracoes do Ano Novo tailandes em Chiang Mai foi tao bonita que eu consegui acabar com as duas baterias que tenho e com a memoria da minha camera. Abaixo vai uma mostra dos trajes tipicos, das demonstracoes de fe, das celebracoes nos templos e tambem da bagunca no meio da parte religiosa da festa.

Depois do Ano Novo ocidental, que passei em Byron Bay, e do Ano Novo balines, que passei em Ubud, hoje tive meu terceiro Ano Novo de 2010 aqui em Chiang Mai, na Tailandia. O Songkran, realizado de 13 a 15 de abril, eh o Reveillon tradicional tailandes.

A zona de pessoas jogando agua umas nas outras nas ruas eh a caracteristica mais famosa dessa festa. O negocio eh divertidissimo, viu, principalmente por causa da animacao dos tailandeses, das gargalhadas com cada vitoria e com cada derrota e dos desejos de “Sa wat dee pee mai” (Feliz Ano Novo) dados o tempo todo. A bagunca ainda eh incrementada por revolveres de agua, potes com talco e baldes cheios de gelo. Esse ultimo item eu, pessoalmente, nao gostei muito, hehe. Reza a lenda que a celebracao com agua seria uma forma de fazer com que tudo e todos comecem o novo ano limpos e purificados. Eu, se depender da quantidade de agua que tomei na cabeca hoje, ja to pronta.

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